O cativeiro da alma: escravatura no século XVI

Não se admite, nem a razão humana consente, que jamais houvesse no mundo trato público de comprar homens livres e pacíficos, como quem compra e vende animais, bois ou cavalos e semelhantes. [No entanto] assim os conduzem, trazem e levam e escolhem com tanto desprezo e violência, como o faz o magarefe ao gado no curral. Os que vão buscar esta gente não pretendem a salvação das suas almas, porque se lhes tirarem o interesse não irão lá.

Padre Fernando Oliveira, Arte da Guerra do Mar, 1555


Faz dó ver como os trazem empilhados na coberta dos navios, aos 25, aos 30, aos 40, nus, mal alimentados, amarrados uns aos outros, costas com costas. Uma vez em terra, metem-nos numa espécie de enxovia, e quem os quer comprar os vai lá ver. Examina-lhes a boca, obriga-os a fazerem quantos movimentos e gestos faz um homem são de corpo. O preço da compra varia de 20 até 60 ducados.

Filipo Sasseti, Cartas, 1580

Os campos de concentração na Europa em 1942















Mapa extraído de História 12, 1º volume, Editorial O Livro, 1997

Os regimes políticos na Europa em 1914




































Mapa extraído de História 12, 1º volume, Editorial O Livro, 1997

Operário e Burguês: dois diagnósticos do século XIX

O trabalhador é de direito e de facto o escravo da classe possuidora, da burguesia; é seu escravo a ponto de ser vendido como uma mercadoria, e o seu preço sobe e desce exatamente como o de uma mercadoria. Em contrapartida, a burguesia encontra-se muito mais à vontade neste sistema que no caso da escravatura antiga; pode despedir o seu pessoal quando lhe apetecer, sem por isso perder o capital investido, e além disso consegue quem trabalhe por muito melhores condições.

F. Engels, A situação da classe trabalhadora em Inglaterra.


O socialismo faz progressos assustadores... Já só haverá que fazer as malas, organizar a guerra civil e rogar aos senhores cossacos que nos ajudem. Rio ao escrever esta frase e penso que o vosso orgulho nacional se vai revoltar, mas creia-me, se virdes um socialista ao pé, não hesitais em preferir-lhe um cossaco. O meu patriotismo acaba aí.

Duque de Morny a Napoleão III

Ao cheiro da pimenta e da canela!

Lisboa vimos crescer
em povos, e em grandeza,
e muito se enobrecer
em edifícios, riqueza,
em armas e em poder.
Porto e trato não há tal,
a terra não tem igual
nas frutas, nos mantimentos,
governo, bons regimentos
lhe falece, e não al.

Vimos muito espalhar
portugueses no viver,
Brasil, ilhas povoar
e às Índias ir morar,
natureza lhe esquecer:
vemos no reino meter
tantos cativos crescer,
e irem-se os naturais,
que se assim for, serão mais
eles que nós, a meu ver.

Garcia de Resende (1470?-1536), Miscelânea

A expansão portuguesa deu origem a muitas críticas dos seus contemporâneos. Garcia de Resende foi uma das vozes que se levantaram contra o despovoamento do Reino e o desleixo na administração portuguesa, avisando também que a riqueza do momento era apenas aparente e transitória...

O reconhecimento da independência de Portugal (1179)

Alexandre[Papa Alexandre III], bispo, servo dos servos de Deus.

Afonso, caríssimo filho em Cristo, ilustre rei de Portugal, e aos seus herdeiros para sempre. Está provado por argumentos irrefutáveis, que como guerreiro e como vencedor intrépido dos inimigos do povo cristão e como propagador diligente da fé cristã e ainda como bom filho e príncipe católico, concedestes muitíssimos favores à Santa Igreja, tua Mãe, deixando para a posteridade um exemplo a imitar. É justo, portanto, que a Sé Apostólica distinga com afeição sincera aqueles que a graça de Deus destinou ao governo e salvação dos povos e se esforce em entender eficazmente os seus justos pedidos. Portanto, considerando nós a tua pessoa cheia de prudência e de justiça para o governo de um povo, aceitámo-la e ao reino de Portugal sob a nossa proteção e do Apóstolo São Pedro, com integridade da honra do reino e com a dignidade que pertence aos reis. Da mesma maneira aceitamos todas as terras que com auxílio da graça divina arrancastes das mãos dos infiéis. De início, porém, determinastes que seriam dadas a nós e aos nossos sucessores dois marcos de ouro e este censo devereis entregá-lo ao arcebispo de Braga , para nossa utilidade e dos nossos sucessores.

Bula Manifestis Probatum, 1179












Sinais de validação de documentos de D. Afonso I

A democracia nos textos de Aristóteles

As atividades da pólis repartem-se pelos governantes e pelos governados: ora é tarefa do governante mandar e administrar a justiça. Mas, para julgar sobre questões de direito e para distribuir os cargos de acordo com os méritos, é necessário que os cidadãos se conheçam uns aos outros e saibam o que são; nos casos em que este conhecimento se não verifique, existe por força um exercício dos cargos e uma administração de justiça de forma defeituosa, já que em ambos os domínios se não deve improvisar.

O fundamento da constituição democrática é a liberdade. Uma das características da liberdade reside em ser governado e governar à vez. A justiça democrática consiste na igualdade segundo o número e não segundo o mérito. De tal noção de justiça resulta que a soberania estará necessariamente no povo e que a opinião da maioria deverá ser o fim a conseguir e deverá ser a justiça. Diz-se, portanto, que cada cidadão deve ter uma parte igual. Como resultado disso, nas democracias, os pobres são mais poderosos do que os ricos: são em maior número e a autoridade soberana está na maioria. Admitidos estes princípios e sendo a natureza do poder como acabámos de ver, são as seguintes as características da democracia: escolha dos cargos por todos; governo de todos por cada um e de cada um por todos à vez; tiragem à sorte para todos os cargos ou pelo menos para todos os que não necessitam de experiência ou de conhecimentos técnicos; ausência de qualquer censo para aceder aos cargos, ou extremamente reduzido; proibição de um mesmo cidadão ser magistrado duas vezes seguidas; curta duração de todos ou do maior número possível dos cargos; administração da justiça pelos cidadãos, escolhidos por todos; poder soberano da Assembleia em todas as matérias.

Aristóteles, A Política (adaptado)

Os nazis e a arte: degeneração vs nacionalismo

Os nazis, desde o início, defenderam um modelo artístico baseado num ideal greco-nórdico, no qual o homem ariano se mostrava musculado e a mulher esbelta e serena, tal como nas obras de Adolf Ziegler (1892-1959), permitindo apenas a existência de uma arte oficial "limpa", otimista e de cariz triunfante. Para Hitler e os restantes líderes nazis a arte moderna era uma monstruosidade de loucos, produto da incapacidade e da degeneração na arte. Também atacavam a cultura negra e denunciavam a influência perigosa do jazz. Em 1933 fundaram a Casa da Arte Alemã, onde apresentariam a Grande Exposição de Arte Alemã, em 1937. Ainda em 1933 iniciaram uma série de "exposições de vergonha" (Schandausstellungen), onde apresentavam o resultado da "barbárie cultural" de artistas como Chagall ou Munch, permitindo apenas a entrada a maiores de 18 anos porque consideravam que este tipo de arte envenenava o povo e a juventude. Goebbels iria também juntar obras de arte que estavam na posse do Estado para apresentar exposições de "arte degenerada" (Entartete Kunstausstellung), em cidades alemãs e austríacas, entre 1937 e 1945. Para os nazis, ser moderno era ser antialemão...


Adolf Ziegler, Os Quatro Elementos, 1937














Otto Dix, Metropolis, 1928

Giuseppe Verdi: um símbolo da unificação italiana

Giuseppe Verdi (1813-1901) é um dos símbolos da unificação italiana. As suas óperas serviram para galvanizar o fervor patriótico dos italianos contra o domínio do Império Austríaco. Uma das óperas mais simbólicas foi "Nabucco", estreada no teatro La Scala, em Milão, a 9 de março de 1842. Narrando o sofrimento do povo judeu debaixo do poder despótico do tirano Nabucodonosor, esta ópera retratava simbolicamente a vida dos italianos debaixo da tirania austríaca. Verdi também iria intervir na vida política, convertendo-se em deputado do primeiro parlamento italiano entre 1861 e 1865. Após a entrada das tropas italianas em Roma, a 20 de setembro de 1870, a unificação da Itália tornou-se efetiva e o novo Estado reconheceu o contributo de Verdi para a causa italiana, concedendo-lhe, em 1874, o título de senador vitalício.

No ocaso do Império Português: Índia, Macau e Timor


















Nos inícios dos anos 60, os territórios portugueses na Ásia eram apenas uma mera sombra do Império do Oriente construído no século XVI, sendo utilizados sobretudo como elementos de propaganda interna e externa pelo Salazarismo. O chamado "Estado da Índia" era composto pelo distrito de Goa, onde se situava a capital administrativa, a que se juntavam os pequenos enclaves de Diu e Damão. Em Timor, que o mapa anexo apresenta como o único território de onde se poderiam retirar algumas vantagens agrícolas e mineralógicas, os portugueses ocupavam apenas a metade leste da ilha e a região de Ocussi Ambeno. A cidade de Macau, incrustada na imensa China, também pouco significava já para os interesses portugueses, exceto na recordação de um passado que o regime pretendia "glorioso".

O primeiro automóvel em Portugal

Em outubro de 1895, em Santiago do Cacém, o conde Jorge de Avillez, um jovem aristocrata da região, fez circular pela primeira vez um automóvel em território português. Tratava-se de um Panhard et Levassor, de 1200 centímetros cúbicos e 3,75 cavalos, encomendado em Paris. O carro tinha rodas de madeira com aros de ferro e alcançava uma velocidade máxima de 15 km/h. Quando chegou à alfândega, em Lisboa, ninguém sabia em que categoria se deveria incluir a nova máquina, acabando registada como locomobile, ou seja, como máquina movida a vapor, embora o seu motor fosse de combustão...



Entre o sagrado e o empírico: o mapamundi catalão

O primeiro mapamundi circular de origem catalã, elaborado cerca de 1450, representa o Mundo na sua totalidade, tal como se conhecia na época, representando apenas a Europa, a Ásia e a África, sendo a cidade de Jerusalém o seu centro. A sua iconografia combinava elementos religiosos e científicos, empíricos e fantásticos. De notar a relativa precisão geográfica da costa ocidental africana até à Serra Leoa, fruto das navegações portuguesas que se realizavam na altura.

Um processo na Inquisição: o caso de Inês Nunes

Quando, em 1618, os Inquisidores visitaram Belmonte, as denúncias de pessoas vizinhas ou próximas não demoraram: Jerónimo Nunes e a sua família foram acusados de práticas "judaizantes". Em fevereiro de 1619, com apenas 14 ou 15 anos, Inês seria presa juntamente com outros familiares e encaminhada para Lisboa. Serão condenados a abjurar, sofrendo apenas o confisco de alguns bens e obrigados a usar hábito penitencial, a ir à missa e assistir às pregações aos domingos e dias santos, a confessarem-se nas festas do ano, jejuar todos os sábados, rezar o rosário de Nossa Senhora e afastarem-se da "gente de nação" (judeus). Muitos anos depois, em outubro de 1663, Inês será novamente presa e enviada para Coimbra. O interrogatório iria desenrolar-se no dia 6 de junho de 1664:

Inquisidor: Se cuidou nas suas culpas e as quer confessar.
Inês: Não tem culpas para confessar.
Inquisidor: Se estaria lembrada que todas as vezes que ali esteve jurou, pelos santos evangelhos, dizer a verdade.
Inês: Sim.
Inquisidor: Se sabe que quem jura verdade sobre os evangelhos e mente incorre em grande culpa e pecado.
Inês: Sim.
Inquisidor: Se depois de reconciliada pela Inquisição de Lisboa se passou novamente para a Lei de Moisés.
Inês: Não, não fez tal coisa.
Inquisidor: Se rezou orações judaicas ou salmos de David sem gloria patri.
Inês: Não.
Inquisidor: Se guarda os sábados, se veste neles camisas lavadas, se faz as limpezas às sextas-feiras e se nelas põe novas nos candeeiros.
Inês: Nunca fez tal coisa depois da sua reconciliação.
Inquisidor: Se guarda a Páscoa dos judeus e a Festa das Cabanas.
Inês: Não.
Inquisidor: Se faz jejuns judaicos às segundas e quintas-feiras, ou o da Rainha Ester ou o do Dia Grande.
Inês: Depois da reconciliação, não.
Inquisidor: Se quando alguma pessoa morria na sua casa ou na vizinhança mandava lançar fora a água dos cântaros.
Inês: Não.
Inquisidor: Se amortalhava os defuntos em mortalha nova e os enterrava em terra virgem e covas fundas.
Inês: Não.
Inquisidor: Se comia carne de porco, coelho, lebre ou peixe sem escama.
Inês: Sim, quando as tinha.
Inquisidor: Se sangrava a carne e lhe tirava as gorduras.
Inês: Não.
Inquisidor: Se nas noites de Natal e S. Jorge atirava para os cântaros da água de beber brasas acesas ou miolos de pão.
Inês: Não.
Inquisidor: Se quando amassava pão lançava no fogo pedaços de massa.
Inês: Não.
Inquisidor: Se quando abençoava os filhos, afilhados ou gente de sua obrigação passava a mão aberta sobre o rosto até ao peito nomeando Abraão, Isaac e Jacob, como os judeus.
Inês: Nunca fizera tal coisa.

Após as diligências necessárias, os Inquisidores consideraram Inês relapsa, negativa, convicta, pertinaz e impenitente. Entregue à justiça secular morreria na fogueira, em auto-de-fé, a 26 de outubro de 1664.

Fonte: PÁSCOA, Marta - Os processos de Jerónimo e Inês Nunes. Algumas pistas para o estudo dos processos inquisitoriais de cristãos-novos, in "Estudos em homenagem a João Francisco Marques", volume II, Faculdade de Letras da Universidade do Porto. 


Theatrum Orbis Terrarum: a América





















Atlas de grabados iluminados, Abraham Ortelius (1527-1598)
Real Monasterio de San Lorenzo de El Escorial

Nesta representação do século XVI, a América surge-nos com feições familiares, mas o seu interior ainda é, em grande parte, desconhecido, sobretudo no que diz respeito à América do Norte e à América do Sul. No hemisfério sul surge-nos uma grande massa de terra, unindo a Antártida e a Nova Guiné e, no Oceano Pacífico, as ilhas descobertas ainda apresentam os nomes espanhóis que os seus primeiros descobridores lhes atribuíram. O Brasil, identificado com a legenda "BRESILIA a Lusitanis Anno 1504 inventa", encontra-se delimitado entre o Rio Maranhão e São Vicente. De destacar a referência ao "Porto Real ad quem Galli mercatum navigant", numa alusão aos navios franceses que por aqui andavam, tentando se estabelecer em terras brasileiras.

O descrédito da monarquia em Portugal

Uma das principais críticas do Partido Republicano Português ao regime monárquico foram os adiantamentos à Casa Real. Em 1906 e 1907, a família real tinha criado o hábito de pedir adiantado os fundos que lhe estavam destinados no orçamento público, criando-se dúvidas sobre os montantes em causa, causando escândalo em todos os níveis da sociedade. No Parlamento, Afonso Costa, da oposição, dizia: "Quando se trata de uma Nação tão pobre como a nossa, tão cheia de fome e de desgraças, como Portugal, desviar dinheiro é um crime tão insusceptível de toda a espécie de arrependimento, que não pode o Sr. Presidente do Conselho, sem manchar os seus lábios, querer fazer acreditar à Câmara que o rei também é um arrependido em questões de dinheiro". O Presidente do Conselho, João Franco, respondeu-lhe: "Retire-se, Senhor, saia do País, para não ter de entrar numa prisão em nome da lei!". A monarquia seria derrubada pouco tempo depois...




O esplendor dos Farós: o Templo de Luxor

































Imagem retirada e adaptada de "Egipto Eterno: Las moradas de los dioses", suplemento de "La Aventura de História"

O templo de Luxor foi construído entre 1279 e 1213 a. C. Começado pelo faraó Amenófis III e terminado por Ramsés II, estava unido ao templo de Karnak por uma larga avenida adornada por esfinges. Era dedicado à tríade tebana, ou seja, aos deuses Amón (deus do sol), Mut (deusa das rainhas) e Konshu (deus da lua). Era um templo, mas também serviu como lugar de reuniões, armazém e mercado.

Legenda
A) Avenida das Esfinges; B) Pilone de Ramsés II; C) Obeliscos de Ramsés II; D) Colossos; E) Pátio de Ramsés II; F) Colunata de Amenófis III; G) Pátio de Amenófis III; H) Sala do Nascimento; I) Santuário de Alexandre Magno; J) Sala Hipóstila; K) Vestíbulo; L) Câmara (sancta sanctorum)