No ocaso do Império Português: Índia, Macau e Timor


















Nos inícios dos anos 60, os territórios portugueses na Ásia eram apenas uma mera sombra do Império do Oriente construído no século XVI, sendo utilizados sobretudo como elementos de propaganda interna e externa pelo Salazarismo. O chamado "Estado da Índia" era composto pelo distrito de Goa, onde se situava a capital administrativa, a que se juntavam os pequenos enclaves de Diu e Damão. Em Timor, que o mapa anexo apresenta como o único território de onde se poderiam retirar algumas vantagens agrícolas e mineralógicas, os portugueses ocupavam apenas a metade leste da ilha e a região de Ocussi Ambeno. A cidade de Macau, incrustada na imensa China, também pouco significava já para os interesses portugueses, exceto na recordação de um passado que o regime pretendia "glorioso".

O primeiro automóvel em Portugal

Em outubro de 1895, em Santiago do Cacém, o conde Jorge de Avillez, um jovem aristocrata da região, fez circular pela primeira vez um automóvel em território português. Tratava-se de um Panhard et Levassor, de 1200 centímetros cúbicos e 3,75 cavalos, encomendado em Paris. O carro tinha rodas de madeira com aros de ferro e alcançava uma velocidade máxima de 15 km/h. Quando chegou à alfândega, em Lisboa, ninguém sabia em que categoria se deveria incluir a nova máquina, acabando registada como locomobile, ou seja, como máquina movida a vapor, embora o seu motor fosse de combustão...



Entre o sagrado e o empírico: o mapamundi catalão

O primeiro mapamundi circular de origem catalã, elaborado cerca de 1450, representa o Mundo na sua totalidade, tal como se conhecia na época, representando apenas a Europa, a Ásia e a África, sendo a cidade de Jerusalém o seu centro. A sua iconografia combinava elementos religiosos e científicos, empíricos e fantásticos. De notar a relativa precisão geográfica da costa ocidental africana até à Serra Leoa, fruto das navegações portuguesas que se realizavam na altura.

Um processo na Inquisição: o caso de Inês Nunes

Quando, em 1618, os Inquisidores visitaram Belmonte, as denúncias de pessoas vizinhas ou próximas não demoraram: Jerónimo Nunes e a sua família foram acusados de práticas "judaizantes". Em fevereiro de 1619, com apenas 14 ou 15 anos, Inês seria presa juntamente com outros familiares e encaminhada para Lisboa. Serão condenados a abjurar, sofrendo apenas o confisco de alguns bens e obrigados a usar hábito penitencial, a ir à missa e assistir às pregações aos domingos e dias santos, a confessarem-se nas festas do ano, jejuar todos os sábados, rezar o rosário de Nossa Senhora e afastarem-se da "gente de nação" (judeus). Muitos anos depois, em outubro de 1663, Inês será novamente presa e enviada para Coimbra. O interrogatório iria desenrolar-se no dia 6 de junho de 1664:

Inquisidor: Se cuidou nas suas culpas e as quer confessar.
Inês: Não tem culpas para confessar.
Inquisidor: Se estaria lembrada que todas as vezes que ali esteve jurou, pelos santos evangelhos, dizer a verdade.
Inês: Sim.
Inquisidor: Se sabe que quem jura verdade sobre os evangelhos e mente incorre em grande culpa e pecado.
Inês: Sim.
Inquisidor: Se depois de reconciliada pela Inquisição de Lisboa se passou novamente para a Lei de Moisés.
Inês: Não, não fez tal coisa.
Inquisidor: Se rezou orações judaicas ou salmos de David sem gloria patri.
Inês: Não.
Inquisidor: Se guarda os sábados, se veste neles camisas lavadas, se faz as limpezas às sextas-feiras e se nelas põe novas nos candeeiros.
Inês: Nunca fez tal coisa depois da sua reconciliação.
Inquisidor: Se guarda a Páscoa dos judeus e a Festa das Cabanas.
Inês: Não.
Inquisidor: Se faz jejuns judaicos às segundas e quintas-feiras, ou o da Rainha Ester ou o do Dia Grande.
Inês: Depois da reconciliação, não.
Inquisidor: Se quando alguma pessoa morria na sua casa ou na vizinhança mandava lançar fora a água dos cântaros.
Inês: Não.
Inquisidor: Se amortalhava os defuntos em mortalha nova e os enterrava em terra virgem e covas fundas.
Inês: Não.
Inquisidor: Se comia carne de porco, coelho, lebre ou peixe sem escama.
Inês: Sim, quando as tinha.
Inquisidor: Se sangrava a carne e lhe tirava as gorduras.
Inês: Não.
Inquisidor: Se nas noites de Natal e S. Jorge atirava para os cântaros da água de beber brasas acesas ou miolos de pão.
Inês: Não.
Inquisidor: Se quando amassava pão lançava no fogo pedaços de massa.
Inês: Não.
Inquisidor: Se quando abençoava os filhos, afilhados ou gente de sua obrigação passava a mão aberta sobre o rosto até ao peito nomeando Abraão, Isaac e Jacob, como os judeus.
Inês: Nunca fizera tal coisa.

Após as diligências necessárias, os Inquisidores consideraram Inês relapsa, negativa, convicta, pertinaz e impenitente. Entregue à justiça secular morreria na fogueira, em auto-de-fé, a 26 de outubro de 1664.

Fonte: PÁSCOA, Marta - Os processos de Jerónimo e Inês Nunes. Algumas pistas para o estudo dos processos inquisitoriais de cristãos-novos, in "Estudos em homenagem a João Francisco Marques", volume II, Faculdade de Letras da Universidade do Porto. 


Theatrum Orbis Terrarum: a América





















Atlas de grabados iluminados, Abraham Ortelius (1527-1598)
Real Monasterio de San Lorenzo de El Escorial

Nesta representação do século XVI, a América surge-nos com feições familiares, mas o seu interior ainda é, em grande parte, desconhecido, sobretudo no que diz respeito à América do Norte e à América do Sul. No hemisfério sul surge-nos uma grande massa de terra, unindo a Antártida e a Nova Guiné e, no Oceano Pacífico, as ilhas descobertas ainda apresentam os nomes espanhóis que os seus primeiros descobridores lhes atribuíram. O Brasil, identificado com a legenda "BRESILIA a Lusitanis Anno 1504 inventa", encontra-se delimitado entre o Rio Maranhão e São Vicente. De destacar a referência ao "Porto Real ad quem Galli mercatum navigant", numa alusão aos navios franceses que por aqui andavam, tentando se estabelecer em terras brasileiras.

O descrédito da monarquia em Portugal

Uma das principais críticas do Partido Republicano Português ao regime monárquico foram os adiantamentos à Casa Real. Em 1906 e 1907, a família real tinha criado o hábito de pedir adiantado os fundos que lhe estavam destinados no orçamento público, criando-se dúvidas sobre os montantes em causa, causando escândalo em todos os níveis da sociedade. No Parlamento, Afonso Costa, da oposição, dizia: "Quando se trata de uma Nação tão pobre como a nossa, tão cheia de fome e de desgraças, como Portugal, desviar dinheiro é um crime tão insusceptível de toda a espécie de arrependimento, que não pode o Sr. Presidente do Conselho, sem manchar os seus lábios, querer fazer acreditar à Câmara que o rei também é um arrependido em questões de dinheiro". O Presidente do Conselho, João Franco, respondeu-lhe: "Retire-se, Senhor, saia do País, para não ter de entrar numa prisão em nome da lei!". A monarquia seria derrubada pouco tempo depois...




O esplendor dos Farós: o Templo de Luxor

































Imagem retirada e adaptada de "Egipto Eterno: Las moradas de los dioses", suplemento de "La Aventura de História"

O templo de Luxor foi construído entre 1279 e 1213 a. C. Começado pelo faraó Amenófis III e terminado por Ramsés II, estava unido ao templo de Karnak por uma larga avenida adornada por esfinges. Era dedicado à tríade tebana, ou seja, aos deuses Amón (deus do sol), Mut (deusa das rainhas) e Konshu (deus da lua). Era um templo, mas também serviu como lugar de reuniões, armazém e mercado.

Legenda
A) Avenida das Esfinges; B) Pilone de Ramsés II; C) Obeliscos de Ramsés II; D) Colossos; E) Pátio de Ramsés II; F) Colunata de Amenófis III; G) Pátio de Amenófis III; H) Sala do Nascimento; I) Santuário de Alexandre Magno; J) Sala Hipóstila; K) Vestíbulo; L) Câmara (sancta sanctorum)

1 de novembro de 1755: o dia em que Lisboa tremeu

No dia 1 de novembro de 1755. pelas 09h40 da manhã, quando muitos lisboetas já estavam na missa a rezar pelos seus mortos, ouviu-se um rugido ensurdecedor e a terra tremeu: 6,5 na escala de Richter. Depois, uma onda gigante de 6 metros engoliu os cais, as naus e as pessoas que se tinham refugiado no Terreiro do Paço. Em 10 minutos... A cidade ardeu durante 6 dias. A maior parte das pessoas morreram no interior das igrejas, mas nunca se saberá o número certo de mortos... O rei e a corte tinham ficado a dormir no Palácio de Belém, escapando, por sorte, à tragédia. Durante 22 anos o rei viverá acampado, à distância, em barracas de madeira, e não voltará a erguer um palácio no centro da sua capital; 65 conventos e mosteiros desapareceram ou ficaram destruídos; 33 palácios ficaram em ruínas; 80 forcas foram construídas pelo Marquês de Pombal para pendurar, sem piedade, quem fosse apanhado a pilhar nos escombros...




A revolução do rock na década de 60



















Os festivais rock, reunindo milhares de pessoas ao ar livre, foram um símbolo da contracultura juvenil: neles se cultivava o espírito comunitário, a fraternidade e os ideais de paz e amor perseguidos pela juventude. O maior festival realizado nos anos 60 foi o de Woodstock, na zona rural de Nova Iorque, em agosto de 1969 e que reuniu uma assistência de 450.000 pessoas. Os diferentes interesses (políticos, económicos, estéticos) levaram, contudo, à diminuição da realização destes festivais já que o mundo da música se tornou num negócio extraordinariamente lucrativo.

Texto retirado de "Dossier: Anos 60", História 9, Constância Editores, 1997

A população judaica na Europa (1939-1945)

















Mapa retirado do acetato "As principais consequências da 2.ª Guerra Mundial", História 9.º, Texto Editora

A Europa no Ano Mil













Mapa retirado do acetato "A Europa no Ano Mil", História 7.º, Porto Editora

A passagem da Roma cristã à Europa cristã operou-se do século V ao século X. A organização administrativa, a reflexão teológica, o esforço missionário acompanharam as empresas políticas e militares. Assim, por volta do Ano Mil estava já constituído, das planícies russas até à Espanha - exceptuando uma zona meridional tocada pelo Islamismo -, um mundo cristão que gravitava entre dois pólos: um, o pólo incontestado de Bizâncio; o outro, o pólo - menos estável - do papado e do Sacro Império Romano-Germânico.

CARPENTIER, Jean e LEBRUN, François - História da Europa, Ed. Estampa, 1993.

A origem medieval das universidades europeias


























Mapa retirado do acetato "Universidades europeias / Românico", História 7.º, Porto Editora

Depois do desaparecimento das escolas antigas foram os conventos que primeiro continuaram a transmissão das artes liberais. Carlos Magno, que compreendera a importância da escrita para todo o qualquer renascimento da Igreja ou do Estado, procurou criar escolas junto das igrejas episcopais e, mesmo, paroquiais e até dentro do seu próprio palácio. Em 1079, o Papa Gregório VII impôs que cada bispo mantivesse uma escola onde fossem ensinadas as "artes literárias". Mas já, em certas cidades, o afluxo de professores e estudantes e o alargamento do leque dos seus temas de reflexão impeliam o mundo das escolas a libertar-se da tutela dos bispos. O século XIII foi o triunfo de uma nova instituição, a Universidade, na qual se desenvolveu um método de ensino que fora criado nas escolas com base na leitura e comentário dos textos de autoridade: a escolástica. A Universidade, protegida tanto pelo papado como pelos poderes laicos, era simultaneamente uma federação de escolas e uma corporação de professores e estudantes, regida por estatutos ou privilégios que lhe eram próprios. O ensino das artes liberais envolvia as disciplinas de nível superior: o direito, a medicina e, principalmente, a teologia.

CARPENTIER, Jean e LEBRUN, François - "História da Europa", Ed. Estampa, 1993 (adaptado) 

O Romano e o Bárbaro

"Pediste muitas vezes uma descrição de Teodorico (1), o rei godo, cuja gentil educação é elogiada a todas as nações. É um homem que vale a pena conhecer, mesmo por aqueles que não podem desfrutar de uma maior familiaridade. É bem constituído, com o peso acima da média, mas abaixo do gigante. Antes do início do dia ele vai com um pequeno séquito assistir ao serviço dos seus sacerdotes. Reza com assiduidade. As tarefas administrativas do reino ocupam o resto da manhã. Nobres armados estão colocados perto do trono real. Em resumo, podes nele encontrar a elegância da Grécia, a alegria da Gália, a vivacidade italiana, o esplendor dos banquetes públicos com o serviço atencioso da mesa privada, e por todo o lado a disciplina de uma casa real."

Carta de Sidónio Apolinário (2), c. 454

"Como queres que eu faça, conforme me pediste, o hino em honra de Vénus? Pois, se vivo no meio de hordas cabeludas. Não ouço falar senão germânico; aplaudo, com ar sombrio, o que canta o Borguinhão, com os cabelos untados de ranço, no meio da embriaguês... Felizes os teus olhos, os teus ouvidos, o teu nariz, porque todas as manhãs dez grosseirões me invadem com o cheiro do alho e da cebola. Tu não és forçado, como eu, a receber, de madrugada, todos estes gigantes, tão numerosos que não caberiam na cozinha de Alcino."

Carta de Sidónio Apolinário (2), 460

(1) Trata-se do rei Teodorico II, rei dos Visigodos entre 453 e 466.
(2) Caius Sollius Modestus Apollinaris  Sidonius (c. 430-c. 480) era um aristocrata romano que viveu na Gália durante a sua transformação de província romana para propriedade dos reis francos.

A Europa cercada: as invasões dos séculos VIII-X
















Mapa retirado do acetato "Formação de sociedade senhorial e vassálica", História 10.º, Porto Editora

Entre os séculos VIII e X, a Europa foi invadida pelos Normandos, os Húngaros e os Muçulmanos. A instabilidade e a insegurança provocaram profundas alterações económicas, politicas e sociais que iriam perdurar ao longo da Idade Média...

Os Hunos pelo olhar dos Romanos

"Eis as causas a que se deve atribuir a origem das diversas calamidades. Os Hunos, povo pouco conhecido dos Antigos, são de uma ferocidade sem medida. Têm o corpo atarracado, a cabeça volumosa e um excessivo desenvolvimento dos ombros. Dir-se-iam animais bípedes e não seres humanos. Os Hunos não cozinham, nem temperam o que comem; não se alimentam senão de raízes silvestres ou de carne crua que aquecem durante algum tempo, colocando-a sobre o dorso do cavalo e sentando-se em cima. Nenhum teto os abriga; vivem no meio dos bosques e das montanhas, endurecidos contra a fome, a sede e o frio, cobrem-se com peles de rato, cosidas umas às outras. Não possuem vestuário para mudar. É a cavalo que os Hunos se entregam a toda a espécie de ocupações. Não desmontam nem para comer, nem para beber, nem para dormir. Seguem em grupos e caem sobre o inimigo, soltando gritos aterradores. Agrupados ou dispersos, atacam ou fogem com a rapidez de um relâmpago."

Amiano Marcelino, historiador romano (c. 330-395)

Propaganda salazarista: as promessas de ordem e progresso